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O massacre dos revoltosos

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        U m dos episódios mais lastimáveis e indignos da história da marcha de 25 mil quilômetros da Coluna Prestes pelo interior do Brasil, no início do século XX, deu-se na cidade de Santo Antônio de Balsas, no sul do Maranhão, no dia 22 de fevereiro de 1926, mais de dois meses depois que os revolucionários haviam deixado o território maranhense, cruzando o rio Parnaíba. O inquérito que apurou o massacre          Na mesma noite em que os rebeldes eram cercados por tropas governistas em Pernambuco, a 1.400 quilômetros de distância de Balsas, um cabo e três soldados da Força Policial Militar maranhense prenderam e fuzilaram, dentro da cela da cadeia pública daquela cidade sertaneja, dois integrantes da Coluna – o autoproclamado médico Oswaldo Gomes de Oliveira e seu companheiro Paschoal – que tinham se perdido do destacamento a que pertenciam e se encontravam na cidade desde o final de novembro do ano anterior. Após o fuzi...

As máscaras

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E ra quase meia-noite, fazia muito frio, as ruas estavam semidesertas. O silêncio era quebrado apenas pelo barulho dos caminhões de lixo e das máquinas que, naquele trecho de Las Condes, lavavam e perfumavam as calçadas com lavanda. Um casal deixa um pequeno prédio da  calle  Napoleón, caminha até a Apoquindo e, na primeira lixeira, deposita o material pesado que leva em duas sacolas. São três máscaras de madeira escura, ricamente entalhadas. O casal retorna rapidamente ao prédio, e a noite prossegue, glacial, em Santiago do Chile.            Aquele tinha sido um dia estressante para o casal: minha mulher e eu. Pela manhã, eu havia recebido um diagnóstico assustador do médico gastroenterologista que me atendera em seu consultório em Providência. Depois de observar várias vezes o resultado dos exames, perguntou se eu me sentia bem, se sofria de dores, ânsias de vômito, tonturas. Respondi que não, tudo o que eu sentia eram reflux...

Relato de um náufrago

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     E ste livro é uma viagem. Seu autor, navegante experimentado nos sete mares da boa prosa de ficção, como bem atestam seus dois livros anteriores de contos, ambos premiados, conduz o leitor numa expedição em busca de um tempo que ele sabe irremediavelmente perdido.    Como o poeta Gonçalves Dias, seu conterrâneo, que sucumbe com seu navio nas águas tormentosas dos Atins quando já avista as palmeiras da terra natal a que tenta retornar depois do exílio, Jozias Benedicto faz, neste  Aqui até o céu escreve ficção , vencedor do Prêmio Literário 2018 do Governo do Maranhão , a viagem regressiva à São Luís da infância e da juventude, consciente de que também não a alcançará plenamente.    A cidade, as pessoas, as vozes, os cheiros, os sabores de outros tempos sobrevivem apenas em sua memória e em sua imaginação. Dessa matéria difusa, feita de lembranças e invenção, nascem os excelentes contos aqui reunidos .  A vida, na definição sempre lembrad...

Caminhando

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       Brasília, nesta época do ano, é um convite à transgressão das normas de isolamento.         Como permanecer em casa com essas manhãs de sol que, repentinamente, substituem os céus nublados de agora há pouco? Como recusar, com indiferença, o ofertório desses ares úmidos, quase neblina, tão raros em outras épocas, e essa vegetação exuberante, e esse céu azul sem nuvens?             Com suas avenidas largas, de pouco movimento, ciclovias, pistas para caminhadas, parques e jardins verdejantes e floridos por toda parte, meia dúzia de rios, riachos e ribeirões em seu entorno e, no centro de tudo, resplandescente, o lago Paranoá, a cidade nos tenta, todos os dias, a sair de casa, com a garantia de que não participaremos de aglomerações nem contribuiremos para a disseminação do vírus.             Basta pôr a máscara no rosto e sair por...

Santaninha, 178

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  E m vez de Santaninha, deveria chamar-se Dos Ausentes. Porque é de ausências que se faz essa pequena e estreita rua do centro histórico de São Luís do Maranhão.    Numa noite amena, de brisa leve, o coração em sobressalto, talvez porque ouço ao longe o rumor do mar, percorro essa rua, na esperança de reencontrar um mundo que, sei, não existe mais.    As casas são as mesmas. As mesmas fachadas, muitas delas decoradas com azulejos azuis, os mesmos beirais, platibandas, portas de madeira, cancelas de ferro, batentes e calçadas maltratados. Sufocaram os paralelepípedos com asfalto, que pena. Mas, e as pessoas que havia aqui, cadê as pessoas? Meu coração acelera.    Repentinamente, uma música invade os espaços. Pela janela da casa em frente, vejo Lindsey Campos executando ao piano meia cauda que trouxe da Alemanha a 5a. Sinfonia de Beethoven.    Olho para o sótão do casarão da esquina da Pespontão e vejo luzes e ouço vozes. Na penumbra, Valdelin...

A casa derruída

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Não resistiu às chuvas do último inverno. Numa  madrugada de aguaceiro, com  raios e trovoadas, desabou, resignada, sobre si mesma. Primeiro, o telhado, com seus caibros e ripas desgastados e telhas recobertas pelo lodo do tempo. Em seguida, as paredes, dissolvidas pelo dilúvio. Em poucos segundos, tudo era apenas um monte de escombros encharcados na praça da matriz.  Nada ficou em pé, resumiu, com pesar, como quem com unica a morte de um parente próximo, o dono da peixaria qu e frequento em Brasília. Ele é a única pessoa nesta cidade que me dá notícias de Mangabeiras, a pequena vila, hoje grande município produtor de soja, onde nasci numa manhã chuvosa de dezembro.  A casa derruída de que me fala o peixeiro conterrâneo é a casa da minha primeira infância, o lar onde vivi até os 6 anos de idade. Enquanto ouço, mudo e paralisado, a notícia, ela, a casa, ressurge nítida na minha memória. Ficava na praça principal, em frente à igr eja. F oi mandada construir por meu pa...

LEITURA: Jorge Luis Borges

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A SUPERSTICIOSA ÉTICA DO LEITOR Jorge Luís Borges A condição indigente de nossas letras, sua incapacidade de atrair produziram uma superstição do estilo, uma distraída leitura de atenções parciais. Os que sofrem dessa superstição entendem por estilo não a eficácia ou ineficácia de uma página, mas as habilidades aparentes do escritor: suas comparações, sua acústica, os episódios de sua pontuação e de sua sintaxe. São indiferentes à própria convicção ou à própria emoção: buscam tecniquerías (a palavra é de Miguel de Unamuno) que lhes informarão se o escrito tem ou não direito de lhes agradar. Ouviram dizer que a adjetivação não deve ser trivial, e vão considerar que uma página está mal escrita   se não houver surpresas na junção de   adjetivos com substantivos, embora sua finalidade geral esteja cumprida. Ouviram dizer que a concisão é uma virtude, e   consideram conciso quem se demora em dez frases breves e não quem domina uma longa. ( Exemplos normativo...