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Os olhos tristes de Verônica

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           V agava pela cidade com umas roupas velhas e compridas, a cabeça coberta por um molambo em forma de véu ou mantilha, sem esconder o rosto negro, magro e uns olhos escuros e profundos que sempre me pareceram os olhos da pessoa mais triste do mundo.               Ninguém sabia onde morava. Acredito que não tinha casa nem ninguém em sua vida, pois era comum encontrá-la adormecida entre as raízes de uma sumaúma centenária na beira do rio Corda, às 5 horas da manhã, quando eu e meus colegas do colégio nos atirávamos contrariados em suas águas gélidas para dar por concluída a aula de educação física com que o cabo Juarez nos torturava às terças e às quintas-feiras na praça da Bandeira.    Todos os dias, às 7 horas, ela assistia à celebração da primeira missa, ajoelhada no pátio calçado de pedras que existe em frente ao portão principal da igreja matriz, de onde podia divisar o r...

Um governador no sertão

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P ara inaugurar as primeiras estradas de um plano rodoviário concebido nos moldes das parcerias público-privadas do liberalismo moderno, o governador José Maria Magalhães de Almeida (1883-1945) realizou, no final de 1927, a primeira viagem de um governador ao sul do Maranhão. Com a garantia de que seriam ressarcidos pelo Estado, fazendeiros e coronéis estavam então construindo, com a mão-de-obra sertaneja, os caminhos carroçáveis que permitiriam a ligação rodoviária entre a capital e o sertão.   Indio Kanela aborda Clarindo Santiago   Entre os dias 14 e 28 de dezembro daquele ano, valendo-se de um sistema multimodal de transportes, o governador foi a Pedreiras, Barra do Corda, Carolina, Balsas e a mais uma dezena de municípios do centro-sul do Estado, viajando pela Estrada de Ferro São Luís - Teresina, por estradas carroçáveis recém-construídas e, em precárias embarcações, nos leitos dos rios Mearim, Itapecuru, Balsas e Tocantins.    Ao todo, de trem, carro e barcos,...

O massacre dos revoltosos

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        U m dos episódios mais lastimáveis e indignos da história da marcha de 25 mil quilômetros da Coluna Prestes pelo interior do Brasil, no início do século XX, deu-se na cidade de Santo Antônio de Balsas, no sul do Maranhão, no dia 22 de fevereiro de 1926, mais de dois meses depois que os revolucionários haviam deixado o território maranhense, cruzando o rio Parnaíba. O inquérito que apurou o massacre          Na mesma noite em que os rebeldes eram cercados por tropas governistas em Pernambuco, a 1.400 quilômetros de distância de Balsas, um cabo e três soldados da Força Policial Militar maranhense prenderam e fuzilaram, dentro da cela da cadeia pública daquela cidade sertaneja, dois integrantes da Coluna – o autoproclamado médico Oswaldo Gomes de Oliveira e seu companheiro Paschoal – que tinham se perdido do destacamento a que pertenciam e se encontravam na cidade desde o final de novembro do ano anterior. Após o fuzi...

As máscaras

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E ra quase meia-noite, fazia muito frio, as ruas estavam semidesertas. O silêncio era quebrado apenas pelo barulho dos caminhões de lixo e das máquinas que, naquele trecho de Las Condes, lavavam e perfumavam as calçadas com lavanda. Um casal deixa um pequeno prédio da  calle  Napoleón, caminha até a Apoquindo e, na primeira lixeira, deposita o material pesado que leva em duas sacolas. São três máscaras de madeira escura, ricamente entalhadas. O casal retorna rapidamente ao prédio, e a noite prossegue, glacial, em Santiago do Chile.            Aquele tinha sido um dia estressante para o casal: minha mulher e eu. Pela manhã, eu havia recebido um diagnóstico assustador do médico gastroenterologista que me atendera em seu consultório em Providência. Depois de observar várias vezes o resultado dos exames, perguntou se eu me sentia bem, se sofria de dores, ânsias de vômito, tonturas. Respondi que não, tudo o que eu sentia eram reflux...

Relato de um náufrago

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     E ste livro é uma viagem. Seu autor, navegante experimentado nos sete mares da boa prosa de ficção, como bem atestam seus dois livros anteriores de contos, ambos premiados, conduz o leitor numa expedição em busca de um tempo que ele sabe irremediavelmente perdido.    Como o poeta Gonçalves Dias, seu conterrâneo, que sucumbe com seu navio nas águas tormentosas dos Atins quando já avista as palmeiras da terra natal a que tenta retornar depois do exílio, Jozias Benedicto faz, neste  Aqui até o céu escreve ficção , vencedor do Prêmio Literário 2018 do Governo do Maranhão , a viagem regressiva à São Luís da infância e da juventude, consciente de que também não a alcançará plenamente.    A cidade, as pessoas, as vozes, os cheiros, os sabores de outros tempos sobrevivem apenas em sua memória e em sua imaginação. Dessa matéria difusa, feita de lembranças e invenção, nascem os excelentes contos aqui reunidos .  A vida, na definição sempre lembrad...

Caminhando

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       Brasília, nesta época do ano, é um convite à transgressão das normas de isolamento.         Como permanecer em casa com essas manhãs de sol que, repentinamente, substituem os céus nublados de agora há pouco? Como recusar, com indiferença, o ofertório desses ares úmidos, quase neblina, tão raros em outras épocas, e essa vegetação exuberante, e esse céu azul sem nuvens?             Com suas avenidas largas, de pouco movimento, ciclovias, pistas para caminhadas, parques e jardins verdejantes e floridos por toda parte, meia dúzia de rios, riachos e ribeirões em seu entorno e, no centro de tudo, resplandescente, o lago Paranoá, a cidade nos tenta, todos os dias, a sair de casa, com a garantia de que não participaremos de aglomerações nem contribuiremos para a disseminação do vírus.             Basta pôr a máscara no rosto e sair por...