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LARA, O ANJO DE BRAZLÂNDIA

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    Fosse um místico ou um poeta, desses que em tudo veem coisas extraordinárias, eu provavelmente começaria essa conversa dizendo que Lara é um anjo. Ou uma fada. Assim como os querubins e as fadas, ela tem asas, adora voar à toa e descer à terra para se alimentar de frutas ou sementes. E produzir milagres.    Acontece que não sou místico nem poeta e, para ser franco, Lara é apenas uma arara. Uma arara vermelha, igual às que se veem com frequência em pequenos bandos ou solitárias, cruzando os céus do Cerrado.    E o milagre que conseguiu, bem, pode ser apenas um dos efeitos positivos dessa pandemia, foi o de provocar um até então desconhecido sentimento de união entre os moradores da área rural de Brazlândia, cidade satélite a cinquenta quilômetros do Palácio do Planalto, em Brasília.    Essa história começou no dia onze de novembro de 2019, quase dois anos atrás, quando Lara surgiu pela primeira vez num dos lugares mais bonitos de Brazlândia, o ...

Amor e ódio no tempo da Balaiada

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D ois jovens maranhenses de Caxias abandonam o curso de Direito que frequentam na Universidade de Coimbra para filiar-se, no Porto, às tropas voluntárias de apoio à rainha Maria I de Portugal, filha de dom Pedro, ex-imperador do Brasil. Miguel, irmão de Pedro, usurpara o trono da sobrinha, e o país mergulhara em guerra civil.    Assegurada a permanência da rainha, Ivo, um dos maranhenses que por ela lutara, volta ao Brasil, fixa-se   no Rio de Janeiro e, em seguida, retorna a Caxias, onde reencontra Nunes, o antigo colega de Coimbra e das lutas no Porto. Para seu desgosto, o amigo, que trouxera do Porto a amante oriental Maia, está envolvido com sua irmã Angélica. O reencontro dos dois amigos, agora inimigos por causa desse triângulo amoroso, se dá no momento em que, em 1838, explode na vila de Caxias a Balaiada, a maior e mais violenta insurreição popular das primeiras décadas do Brasil independente.    A relação conflituosa que se estabelece entre amigos em fu...

Um soneto para Verônica

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Viriato Gaspar, o excelente poeta de  Manhã Portátil  (1984),   A Lâmina do Grito  (1988)  e  Sáfara Safra  (1996), ficou comovido com a crônica “Os olhos tristes de Verônica", que publiquei há duas semanas neste  blog. Na esplêndida manhã deste domingo, ele me presenteou com a mensagem abaixo, que tomo a liberdade de reproduzir, com o soneto que a acompanha:   “Meu velho amigo, essa história que teu talento e sensibilidade trouxeram a nós, teus leitores, tocou-me profunda e duramente. Sob essa emoção, nasceu este soneto, que espero não desmereça o sofrimento dessa mulher tão vergastada pelo destino. Minha homenagem à tua crônica, tão comovedoramente humana”.      OS OLHOS DE VERÔNICA Viriato Gaspar ( Dedicado a Antonio Carlos Lima )     A dor não seca. Vai murchando os dias. Derrama um pus de chumbo nos instantes. E levantar, ao sol que se anuncia, é ter mais rasgo e pedras por diante.   Há que arrancar, dos oss...

O Brasil e as borboletas amarelas

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             O Brasil  esteve, quase sempre, de costas para a América Latina. Somem-se à barreira da língua os distintos processos históricos, sociais e culturais e a ausência de uma política efetiva de integração regional - e estará explicada a distância que separa as Américas hispânica e portuguesa.            No início dos anos 60 do século passado, houve experiência exitosa de diplomacia cultural, com a implantação, em todos os países do subcontinente, de centros e institutos de estudos, à semelhança da Aliança Francesa e do Instituto Goethe, destinados à difusão da língua portuguesa e à promoção da cultura brasileira. Marco mais ambicioso foi o acordo firmado em 1986 pelos presidentes Sarney, Alfonsín (Argentina) e Sanguinetti (Uruguai) visando à integração econômica, cultural, energética e turística das nações sul-americanas. Iniciativa que se frustrou, em parte, pelo insucesso do Mercosul, o...

Os olhos tristes de Verônica

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           V agava pela cidade com umas roupas velhas e compridas, a cabeça coberta por um molambo em forma de véu ou mantilha, sem esconder o rosto negro, magro e uns olhos escuros e profundos que sempre me pareceram os olhos da pessoa mais triste do mundo.               Ninguém sabia onde morava. Acredito que não tinha casa nem ninguém em sua vida, pois era comum encontrá-la adormecida entre as raízes de uma sumaúma centenária na beira do rio Corda, às 5 horas da manhã, quando eu e meus colegas do colégio nos atirávamos contrariados em suas águas gélidas para dar por concluída a aula de educação física com que o cabo Juarez nos torturava às terças e às quintas-feiras na praça da Bandeira.    Todos os dias, às 7 horas, ela assistia à celebração da primeira missa, ajoelhada no pátio calçado de pedras que existe em frente ao portão principal da igreja matriz, de onde podia divisar o r...

Um governador no sertão

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P ara inaugurar as primeiras estradas de um plano rodoviário concebido nos moldes das parcerias público-privadas do liberalismo moderno, o governador José Maria Magalhães de Almeida (1883-1945) realizou, no final de 1927, a primeira viagem de um governador ao sul do Maranhão. Com a garantia de que seriam ressarcidos pelo Estado, fazendeiros e coronéis estavam então construindo, com a mão-de-obra sertaneja, os caminhos carroçáveis que permitiriam a ligação rodoviária entre a capital e o sertão.   Indio Kanela aborda Clarindo Santiago   Entre os dias 14 e 28 de dezembro daquele ano, valendo-se de um sistema multimodal de transportes, o governador foi a Pedreiras, Barra do Corda, Carolina, Balsas e a mais uma dezena de municípios do centro-sul do Estado, viajando pela Estrada de Ferro São Luís - Teresina, por estradas carroçáveis recém-construídas e, em precárias embarcações, nos leitos dos rios Mearim, Itapecuru, Balsas e Tocantins.    Ao todo, de trem, carro e barcos,...