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Mororó e o pacto com o diabo

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P arecia um personagem do realismo mágico de Garcia Márquez ou do pós-modernismo de Guimarães Rosa.               Comerciante bem sucedido, morava com a família, a mulher e duas filhas, num casarão imponente, com calçada alta, fachada arrematada por platibanda decorada, seis portas e seis janelas que se abriam para duas ruas cruzadas ao pé da ladeira da Altamira.             Na parte frontal da casa, ficava a loja, que visitei muitas vezes, aos onze, doze anos, onde ele vendia gêneros alimentícios, pólvora e ferramentas para uma clientela que incluía os moradores da cidade, fazendeiros, lavradores, tropeiros e índios do sertão.             Lembro-me nitidamente de sua figura. Alto, branco, cabelos ralos, sobrancelhas grossas, sem camisa, com uma calça de mescla presa por cinto de couro cru, o m...

Hora de Guarnicê na República dos becos

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            EM JUNHO DE 1975, sob a coordenação da Fundação Cultural do Maranhão, dirigida por José Ribamar Belo Martins, publicava-se, em São Luís, o livro Hora de Guarnicê - Poesia nova do Maranhão,  obra literalmente antológica . Eram 14 os novos poetas reunidos: Antonio Moysés, Chagas Val, Ciro Falcão, Cunha Santos Filho, Edmilson Costa, Francisco Tribuzi, Henrique Corrêa, João Alexandre Júnior, João Ubaldo, Luís Augusto Cassas, Raimundo Fontenele, Rossini Corrêa, Valdelino Cécio e Viriato Gaspar. O título, sugerido por um dos poetas, Valdelino Cécio, é uma alusão ao momento que antecede as apresentações das brincadeiras de bumba-meu-boi, o tempo de guarnicê , a preparação após o toque de arreunir , e pretendia traduzir o envolvimento de todos com as raízes populares da cultura.             Alguns dos poetas de Hora de Guarnicê   haviam integrado o movimento de renovação Antrop...

Quadrinhos, livros e vacas

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Admiro os amigos que dizem ter lido a Divina Comédia aos oito, nove anos de idade, conheceram o idealismo transcendental de Kant aos dez e, aos onze, já sabiam de cor trechos do Fausto , de Goethe. Antes dos dez anos, o que eu lia mesmo, e muito, eram histórias em quadrinhos e livros de bolso. Lembro de estar, aos sete anos, na fila do Cine Natal, para assistir a  Ben-Hur, de William Wyler, com uma pilha de revistas do Fantasma, Mickey, Tarzan e Super-Homem debaixo do braço para o ritual de troca de exemplares já lidos, na calçada larga onde leitores e cinéfilos se encontravam toda vesperal de domingo. (Por que acabaram com o saudável escambo de revistas e figurinhas de álbuns nas portas dos cinemas? Ou, se melhor pergunto: por que acabaram com os cinemas daquele tempo?). Foram os quadrinhos, juntamente com o rádio – único meio de comunicação de massa que conheci na infância -   a minha primeira janela para o mundo. Com as histórias em quadrinhos, viajei países, ...

O Duque de Giz

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  Reunião no  terraço do Castelo de Giz, à beira do Rio Corda. O Duque está na margem direita da foto, sentado e de boina           Chamava-se José Nogueira Arruda. Zezé Arruda, para os íntimos.           Um dia, de passagem pela cidade, um caixeiro viajante lhe disse que a sua casa, por ser ampla e ter a fachada pintada de branco, assemelhava-se a um castelo de giz. Ele gostou da imagem, e o caixeiro, para agradá-lo duplamente, levou-lhe, na viagem seguinte, uma placa de alumínio com a inscrição que identificaria até hoje, na fachada, a morada branca mais célebre dos meus tempos de menino em Barra do Corda: Castelo de Giz. O Duque e irmãs, em frente ao Castelo             Se a casa, localizada em frente a uma pracinha arborizada e de fundos para o rio, era um castelo, o dono certamente era um duque, concluiu Zezé Arruda. Concedeu-se, assim, o título de...