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A Padaria Espiritual

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No finalzinho do século XIX, um grupo de jovens cearenses inquietos, como esses que hoje tomam as ruas do país em defesa da educação, decidiu chacoalhar o ambiente intelectual de Fortaleza, investindo, ora, vejam, contra o menosprezo ao conhecimento e o culto à ignorância, que nada é novo neste mundo. Reunidos num café no centro da cidade, sob a liderança de Antonio Salles, um poeta e escritor de 23 anos, esses jovens criaram, em maio de 1892,   a Padaria Espiritual, “uma sociedade de rapazes de Letras e Artes” destinada a “fornecer pão de espírito aos sócios, em particular, e aos povos, em geral”. Na ocasião, divulgaram um bem-humorado estatuto de 48 artigos estabelecendo as regras de funcionamento das fornadas (reuniões) e as atribuições dos seus vinte padeiros (os sócios).    O distintivo da Padaria, segundo o estatuto, seria uma haste de trigo cruzada por uma pena. Criou-se um órgão de divulgação da sociedade, “O Pão”, jornal de oito páginas, de circulação m...

A cor da pele de Machado de Assis

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Sob encomenda da Faculdade Zumbi dos Palmares, de São Paulo, uma agência de publicidade “coloriu” uma foto clássica de Machado de Assis, escurecendo a pele do escritor, como parte de uma campanha destinada a  demonstrar que o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas era negro e, assim, supõe, contribuir para frear o racismo na literatura brasileira. Além de pedir que a nova imagem substitua a antiga “em todos os livros”, a campanha apresenta um abaixo-assinado pedindo que as editoras “deixem de imprimir, publicar e comercializar livros em que o escritor aparece embranquecido e substituam a imagem preconceituosa pela foto do Machado de Assis real”. Na minha modesta opinião, essa campanha serve a uma boa causa, o combate ao racismo, mas não serve à verdade. Que Machado de Assis tinha sangue africano é fato incontestável. Seus avós, Francisco de Assis, e Inácia Rosa, eram "pardos forros", como se designavam na época os escravos libertos. Negros, portanto. ...

Pedro Nava do Maranhão

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I gnoram-se as razões pelas quais, antes de publicar a obra que o consagrou, o médico ,  escritor  e memorialista  mineiro Pedro Nava  jamais  visitou o Maranhão, terra de seus  avós paternos e onde estão fincadas suas mais remotas raízes familiares no Brasil.  Em “Baú de ossos”, o primeiro de uma série de seis livros que constituem a mais importante  obra da memorialística brasileira, Nava revela que, em  São Luís   do Maranhão,  nasceu o seu  bisavô ,  Fernando  Antonio Nava, filho do italiano José Nava, que desembarcou no Brasil no final do século 18.  Também em São Luís   nasceram  os irmãos   Maria Nava Rodrigues, Ana Nava Rodrigues,  Paula Nava Guimarães (que foi professora do  Curso Pr imário, em Caxias) e  Pedro da Silva Nava, avô do escritor. Esse Pedro , segundo o testemunho do neto ,  veio ao mundo em  19 de outubro de 1843, na freguesi a de Nossa Senhor...

A polêmica dos cegos (O duelo entre Machado de Assis e o maranhense Joaquim Serra)

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“ Qual dos dois cegos mais sente/ O penoso estado seu:/ O que cegou por desgraça,/ O que cego que já nasceu? ”                     Em torno dessa intrigante questão, formulada pelo jornal fluminense A Marmota aos seus leitores,   o então aprendiz de tipógrafo e aspirante a poeta Joaquim Maria Machado de Assis   travou, aos 19 anos,   sua primeira discussão pública, ao enfrentar outro Joaquim Maria, o maranhense Joaquim Maria Serra Sobrinho, de 20 anos - mais tarde um de seus mais diletos amigos- , no episódio que ficou conhecido como “a polêmica dos cegos”. A polêmica, que durou um mês, de 26 de fevereiro a 26 de marco de 1858 –   há 161 anos, portanto - exibiu um Machado de Assis diferente daquele apresentado por seus biógrafos: o do intelectual que cultivara, durante toda a vida, o “tédio à controvérsia”. Afinal,   à exceção da crítica corrosiva feita ao escritor português...