Postagens

Hemetério, o professor abolicionista de Codó

Imagem
Professor Hemetério dos Santos D epois de Maria Firmina dos Reis (1822-1917), reconhecida e celebrada como primeira escritora a tratar, na literatura brasileira, do tema da escravidão, chegou a vez de outro maranhense, o professor Hemetério José dos Santos (1858-1939), nascido em Codó, subir ao pódio das personalidades emblemáticas dos movimentos negros no Brasil. Assim como Maria Firmina (1822-1917), que ganhou notoriedade nos meios acadêmicos e estudantis depois de sua redescoberta nos anos 70 do século passado pelo poeta Nascimento Morais Filho, Hemetério dos Santos virou, repentinamente, tema de estudos em diversas universidades por sua contribuição, como professor e escritor, na luta pela inclusão do negro na sociedade e pelo fim do preconceito racial. Hemetério dos Santos: de fraque e cartola O curioso é que nenhum dos dois esteve na linha de frente do movimento abolicionista, liderado por José do Patrocínio, Luís Gama, André Rebouças (negros, como Hemetério), Jo...

Mororó e o pacto com o diabo

Imagem
P arecia um personagem do realismo mágico de Garcia Márquez ou do pós-modernismo de Guimarães Rosa.               Comerciante bem sucedido, morava com a família, a mulher e duas filhas, num casarão imponente, com calçada alta, fachada arrematada por platibanda decorada, seis portas e seis janelas que se abriam para duas ruas cruzadas ao pé da ladeira da Altamira.             Na parte frontal da casa, ficava a loja, que visitei muitas vezes, aos onze, doze anos, onde ele vendia gêneros alimentícios, pólvora e ferramentas para uma clientela que incluía os moradores da cidade, fazendeiros, lavradores, tropeiros e índios do sertão.             Lembro-me nitidamente de sua figura. Alto, branco, cabelos ralos, sobrancelhas grossas, sem camisa, com uma calça de mescla presa por cinto de couro cru, o m...

Hora de Guarnicê na República dos becos

Imagem
            EM JUNHO DE 1975, sob a coordenação da Fundação Cultural do Maranhão, dirigida por José Ribamar Belo Martins, publicava-se, em São Luís, o livro Hora de Guarnicê - Poesia nova do Maranhão,  obra literalmente antológica . Eram 14 os novos poetas reunidos: Antonio Moysés, Chagas Val, Ciro Falcão, Cunha Santos Filho, Edmilson Costa, Francisco Tribuzi, Henrique Corrêa, João Alexandre Júnior, João Ubaldo, Luís Augusto Cassas, Raimundo Fontenele, Rossini Corrêa, Valdelino Cécio e Viriato Gaspar. O título, sugerido por um dos poetas, Valdelino Cécio, é uma alusão ao momento que antecede as apresentações das brincadeiras de bumba-meu-boi, o tempo de guarnicê , a preparação após o toque de arreunir , e pretendia traduzir o envolvimento de todos com as raízes populares da cultura.             Alguns dos poetas de Hora de Guarnicê   haviam integrado o movimento de renovação Antrop...

Quadrinhos, livros e vacas

Imagem
Admiro os amigos que dizem ter lido a Divina Comédia aos oito, nove anos de idade, conheceram o idealismo transcendental de Kant aos dez e, aos onze, já sabiam de cor trechos do Fausto , de Goethe. Antes dos dez anos, o que eu lia mesmo, e muito, eram histórias em quadrinhos e livros de bolso. Lembro de estar, aos sete anos, na fila do Cine Natal, para assistir a  Ben-Hur, de William Wyler, com uma pilha de revistas do Fantasma, Mickey, Tarzan e Super-Homem debaixo do braço para o ritual de troca de exemplares já lidos, na calçada larga onde leitores e cinéfilos se encontravam toda vesperal de domingo. (Por que acabaram com o saudável escambo de revistas e figurinhas de álbuns nas portas dos cinemas? Ou, se melhor pergunto: por que acabaram com os cinemas daquele tempo?). Foram os quadrinhos, juntamente com o rádio – único meio de comunicação de massa que conheci na infância -   a minha primeira janela para o mundo. Com as histórias em quadrinhos, viajei países, ...